Um Trabalho para Aprendiz
Este trabalho foi apresentado em Loja de .Aprendiz em 30 de julho de 1990, no quarto de hora de estudos. Consiste no resumo do Livro "R História de Fernão Capelo Gaivota" de Richard Bach.
A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que o simples fato do vôo, como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar. mas comer. Para Fernão Capelo Gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar. Antes de tudo mais, ele adorava voar.
Esta maneira de pensar não o popularizava entre os outros pássaros, como veio a descobrir. Até os próprios pais se sentiam desanimados ao vê-lo passar dias inteiros fazendo centenas de vôos rasantes, sozinho.
Escute, Fernão - disse-lhe o pai com bondade - o inverno não está longe. Haverá poucos barcos e o peixe da superfície irá para zonas mais profundas. Se você tem necessidade de estudar, então estude o alimento e como consegui-lo. Esta história dos vôos está muito certa, mas você tem de pensar que não pode comer um vôo rasante. Não esqueça que a razão porque você voa é comer.
Fernão baixou a cabeça, obediente. Nos dias seguintes tentou comportar-se como as outras gaivotas; tentou de fato, gritando e lutando como o resto do bando, em volta dos pontões e dos barcos de pesca, mergulhando sobre restos de peixe e de pão. "Não faz sentido", pensava ele largando deliberadamente uma anchova suculenta, que lhe custara bastante a ganhar, aos pés de uma velha gaivota esfomeada que o acossava. "Não faz sentido" ... "Eu podia ganhar todo este tempo aprendendo a voar. Há tanto que aprender!"
Não tardou muito para que Fernão Gaivota voltasse a pairar no céu, sozinho, esfomeado, feliz, aprendendo. Revoltava-se em saber que uma gaivota era uma presa fácil, por voar muito devagar.
O tema era a velocidade. E depois de uma semana de prática, conseguira aprender mais sobre velocidade do que a gaivota viva mais rápida.
Aprendeu que encurtando as asas, como as asas do falcão, poderia atingir em mergulho a velocidade fantástica de trezentos e vinte quilômetros por hora.
Isto aconteceu em uma manhã, logo a seguir ao nascer do sol, Fernão Gaivota atravessou o Bando da Alimentação que perseguia um barco de pesca; como uma bala, riscando o céu a trezentos e vinte quilômetros por hora, num tremendo rugido de vento e penas. A Gaivota da Fortuna sorriu-lhe desta vez e ninguém foi ferido.
Radiante, pensava no bando, "Ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!"
Ao voltar à noite para o bando, Fernão foi chamado ao centro. As palavras do mais velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra.
Fernão Gaivota - disse o mais velho -, é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes... pela sua desastrada irresponsabilidade por violar a dignidade e tradição da família das gaivotas... não se pode esquecer, que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos.
Uma gaivota nunca contesta o Conselho do Bando, mas a voz de Fernão ergueu-se gritando:
Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres!
O bando mostrou-se impenetrável como a pedra. Fernão foi banido da sociedade das gaivotas, condenado para a vida solitária nos Penhascos Longínquos.
Fernão Gaivota passou o resto dos dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as esperava. Recusaram -se a abrir os olhos e a ver.
Aprendia cada vez mais.
Aprendeu que um eficiente mergulho a grande velocidade lhe dava o peixe raro e saboroso que vivia três metros abaixo da superfície do mar. Já não precisava de barcos de pesca nem de pão duro para viver.
Aprendeu a dormir no ar, estabelecendo um percurso noturno pelo vento do largo, cobrindo cento e cinqüenta quilômetros desde o ocaso até a aurora.
Fernão Gaivota descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões porque a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a pertubar-Ihe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz.
À noite vieram duas gaivotas puras como a luz das estrelas, e Fernão elevou-se junto a elas, para desaparecer num céu perfeitamente escuro.
Enquanto se afastava da terra e ultrapassava as nuvens, pensava "Então o paraíso é isto", e notou que o seu próprio corpo se tornara tão brilhante como o das duas gaivotas que o acompanhava. As nuvens romperam-se, a escolta gritou-lhe "Feliz aterragem, Fernão".
Fernão pousou em uma praia, sabia que aquele era o seu novo bando, novas paragens, novos pensamentos, novas perguntas.
"Por que tão poucas gaivotas? O Paraíso devia estar pejado de gaivotas!"
Fernão verificou que neste lugar havia tanto para aprender acerca do vôo como houvera na vida que deixava para trás.
Mas com uma diferença. Aqui havia gaivotas que pensavam como ele. Para cada uma delas o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição.
Uma noite, após juntarem-se na praia, Fernão dirigiu-se a gaivota mais velha... Chiang... Começou ele, um pouco nervoso.
A velha gaivota olhou-o com bondade. Chiang, este mundo não é o paraíso?
Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito.
Você começará a se aproximar do paraíso no momento em que alcançar a velocidade perfeita.
E isso não é voar a mil e quinhentos quilômetros por hora, nem à velocidade da luz, porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita é voar à velocidade do pensamento.
Segundo Chiang, o truque estava em Fernão deixar de se ver aprisionado dentro de um corpo limitado, em saber que a sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, através do espaço e do tempo.
- Se você quiser, podemos começar a trabalhar, com tempo -disse-lhe Chiang -, até você poder voar no passado e no futuro. E então estará preparado para começar o mais difícil, o mais poderoso, estará preparado para voar no além e conhecer o significado das palavras "bondade" e "amor".
Fernão Gaivota nascera para ser mestre, e a sua maneira de demonstrar o amor era dar um pouco da verdade que ele próprio descobrira a uma gaivota que apenas pedisse uma oportunidade para vislumbra r essa verdade.
Fernão ficou trabalhando com os novos pássaros que chegaram e que se mostraram muito inteligentes e rápidos na aprendizagem das suas lições. Mas o velho sentimento voltou e ele não podia impedir-se de pensar que talvez houvesse uma ou duas gaivotas na terra que também pudessem aprender, e o que saberia ele agora se Chiang tivesse ido ao seu encontro no dia em que fora banido.
Fernão fixou no pensamento a imagem dos grandes bandos de gaivotas das costas dos outros tempos e, com a facilidade do treino, soube que não era só ossos e penas, mas sim uma idéia perfeita de liberdade.
Voltou a terra, encontrou com uma jovem gaivota de nome Francisco que acabara de ser banido, que revoltado dizia que seria um fora-da-lei, que lhes mostraria o que é voar, que iriam lamentar tanto a sua expulsão.
Fernão disse a Francisco Gaivota...
- "Ao expulsarem-no, as outras gaivotas só fizeram mal a si próprias, e um dia vão sabê-lo, e um dia verão o
que você vê. Perdoe-lhes e ajude-as a compreender".
Cada um de nós é, em realidade, uma idéia da Grande Gaivota, uma idéia ilimitada da liberdade.
Ao cabo de três meses, Fernão tinha mais seis discípulos, todos banidos, mas ainda curiosos acerca desta estranha e nova idéia de voar.
Fernão resolveu que era tempo de retornar ao bando, pois segundo a lei do bando, nenhum banido regressa, e a lei não fora quebrada em dez mil anos.
E assim, oito gaivotas voaram em formação de diamante, atravessaram a praia do Conselho do Bando, a mais de duzentos quilômetros por hora.
Os gritos e os guinchos habituais à vida diária do bando cessaram de repente, como se a formação fosse uma espada gigante, e oito mil olhos de gaivotas observaram em silêncio.
A palavra do mais velho levou quase uma hora a percorrer o bando: "Ignorem-nos. A gaivota que falar a um banido será banida. A gaivota que olhar para um banido quebrará a lei do bando".
Todas as gaivotas viraram as costas para Fernão, e ele não deu a perceber tê-lo notado. Deu as sessões de treino precisamente sobre a praia do Conselho.
Gradualmente, à noite, começou a formar-se outro círculo à volta dos alunos - um círculo de gaivotas curiosas que escutavam durante horas a fio, desejando não ver nem ser vistas por outras e desvanecendo-se na meia luz que antecede a aurora.
Foi um mês depois do regresso que a primeira gaivota do bando venceu a barreira e pediu para aprender a voar.
Ao fazê-lo, Teseu Souza Gaivota passou a ser um pássaro condenado, portador de uma etiqueta que dizia: Banido. E passou também a ser o oitavo aluno de Fernão.
Na noite seguinte foi Virgílio Gaivota quem deixou o bando. Aproximou-se cambaleante, arrastando a asa esquerda pela areia, e caiu aos pés de Fernão.
- Ajude-me, mais do que tudo no mundo eu quero voar, não consigo mexer a minha asa.
-Virgílio Gaivota, você tem liberdade de ser você mesmo, de ser o seu próprio eu, e não há nada que possa interpor-se no seu caminho. •Essa é a lei da Grande Gaivota.
- Digo que você é livre.
Tão simples e rapidamente como fora dito, Virgílio Gaivota abriu as asas, sem esforço, e rasgou o ar negro da noite.
Quando o sol surgiu no horizonte, havia quase mil pássaros em volta do círculo de alunos, olhando curiosamente para Virgílio. Pouco lhes importava serem vistos ou não, e escutavam, tentando compreender.
Fernão Gaivota falou de coisas muito simples - que as gaivotas tem o direito de voar, que a liberdade é própria da sua natureza.
Uma semana depois, Francisco Gaivota estava demonstrando os elementos do vôo a alta velocidade a uma classe de novos alunos. Acabara de sair de um mergulho de dois mil metros quando um filhote de gaivota atravessou o seu caminho. Dispondo apenas de um décimo de segundo para desviar do novato, Francisco Coutinho Gaivota atirou-se violentamente contra um rochedo de sólido granito.
Para ele foi como se a rocha fosse uma porta dura e gigantesca para um outro mundo.
Sentiu-se invadido por uma onda de medo, de escuridão, flutuou num céu estranho, estranhíssimo, esquecendo, lembrando, esquecendo; com medo, dor e tristeza, uma imensa tristeza.
A voz chegou-lhe como no primeiro dia em que encontrara Fernão Capelo Gaivota.
- Chico, você não morreu, o que você conseguiu fazer, foi modificar o seu nível de consciência de modo um pouco brusco. Agora você tem a liberdade de escolher: ou ficar aqui e aprender neste nível que é bem mais evoluído, ou regressar e continuar trabalhando com o bando.
- Quero voltar para o bando, é claro, respondeu Chico Gaivota. Mal comecei a treinar o novo grupo.
Francisco abanou a cabeça, abriu as asas e descerrou os olhos, junto da base do rochedo onde se juntava todo o bando.
Da multidão ergueu-se um enorme clamor de gritos e guinchos quando o viram mecher-se pela primeira vez.
- Está vivo! Estava morto e vive! trouxe-o à vida! É o filho da Grande Gaivota.
No dia seguinte quando a manhã surgiu, Fernão conversava com Francisco a respeito do significado das palavras amor e bondade.
- Francisco, você tem de treinar até ver a verdadeira gaivota, o que há de bom em cada uma delas, e ajudá-las a ver isso nelas próprias. Para mim o amor é isso. Você deverá construir o seu próprio paraíso, você já conheceu a luz e deverá guiar o bando nesta direção.
Dito isto, Fernão lembrou que existiam outros bandos que necessitavam de um instrutor e desapareceu no ar.
Passado bom tempo, Francisco Gaivota estava à frente de um novo grupo de alunos, desejosos de ter a primeira lição.
- Para começar - disse Francisco, tem de compreender que uma gaivota é uma ilimitada idéia de liberdade, uma imagem da Grande Gaivota.
7\ História de Fernão Capelo Qaivota é um verdadeiro hino à liberdade e a procura incansável da perfeição.
Devemos observar na história os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade.
Também, o preconceito de sociedades com relação a grupos de pessoas que são livres de pensamentos e atitudes, que buscam o bem comum e não são compreendidas, que tem como missão à busca do conhecimento e a prática do amor e da caridade.
Para Fernão Capelo Qaivota, o importante não era viver uma vida em busca do que comer, e sim, do conhecimento da arte do vôo e da velocidade perfeita.
O significado maior de estarmos nesta vida, não só para ganharmos o pão de cada dia, ter fartura e poder, mas sim conhecer o verdadeiro significado das palavras liberdade, perfeição, amor e bondade.
Assim, nos comparamos ao vôo solitário de Fernão Capelo Qaivota, entre o céu e o mar, cortando os raios de luz do amanhecer, descobrindo que a velocidade perfeita não é um número, porque nenhum número é um limite, e que a perfeição não tem limites, compreendendo que o mais importante é a prática constante da busca da perfeição.
Mesmo que a perfeição não exista, que tenhamos que passar por muitas vidas para compreender o verdadeiro significado da missão solitária da existência, não nos faltará à fé na busca do conhecimento perfeito.
O exemplo do verdadeiro significado da morte e da ressurreição do Chico Qaivota, a morte para o mundo profano, onde o aprendizado é o despojar dos metais, dos medos e dos preconceitos, e renascer para uma vida plena de amor, trabalho e de doação.
O Aprendiz tem que aprender a desbastar a pedra bruta, construir templos às virtudes e cavar masmorras aos vícios, sem nunca perder a fé e a esperança, e ser incansável na procura incessante da verdade.
Com o passar do tempo, galgando degraus na escada de Jaeó, ampliamos os conceitos de vícios e virtudes, compreendendo o verdadeiro significado da construção do edifício da formação moral e intelectual do homem, combatendo a inveja, o orgulho, o egoísmo, a ignorância e a tirania, buscando aprender os conceitos de trabalho, caridade, fé, esperança, amor e bondade.
Não importa o cargo, o grau, a posição sociaí e a condição financeira, seremos sempre aprendizes na arte da busca do conhecimento e da verdade.
Ir.-. Flávio Antônio C. A Cangado